3/Romanos

No meu caminho de volta para casa após o trabalho, fui abordado por um anjo.
Não o anjo em minha casa, e sim um anjo pertencente a uma subespécie de A-Rays.

"Você não tem sido muito sociável ultimamente. Para rejeitar um convite de uma pessoa bela como eu, deve ser no mínimo impotente.”

Foi o que ela disse enquanto me empurrava para dentro de um bar e me oferecia um copo de bebida. ...É verdade que não converso com ela há mais ou menos seis meses.

Enquanto conversávamos casualmente, um bando de arruaceiros nos interrompeu. Eles disseram que o anjo deveria estar acompanhado de A-Rays ao invés de um humano. Eu também pensava assim, mas ela os calou apenas com o olhar.

"Sinto muito por isso. Você se ofendeu?"

"Realmente não me sinto muito bem com isso, mas eles estavam certos. Por que você se importa com alguém como eu? Não é política dos A-Rays encontrarem um parceiro que produza uma prole mais forte? Eu não serei capaz de te dar as crianças que deseja."

"Uma exceção não fará mal, fará? Além do mais, a aparência externa é de muito mais importância para nós. Não existem muitas espécies que se pareçam com os anjos, e você faz o meu tipo. Não há o menor problema."

Foi o que ela disse, ao beber o líquido púrpuro efervescente em seu copo.

A aparência dela era a de um verdadeiro anjo. Suas asas não eram utilizadas para voar, e sim como um catalisador das partículas densas ao redor. A espécie dos anjos era capaz de voar mesmo sem as asas e, por serem originalmente os protetores das A-Rays chamadas “Seis Irmãs”, os anjos eram considerados tão poderosos quanto os Cavaleiros; os quais possuíam a Espada Demoníaca.
Em outras palavras, eles podem realizar uma atividade destrutiva no nível de uma bomba nuclear com sua própria força.

Ao passo que nós continuávamos a beber e nosso verdadeiro caráter ia vindo à tona, ela me fez uma pergunta estranha.

"Ei, por que você usa uma arma?"

"Seres humanos não conseguem utilizar Gin como vocês A-Rays, sabia? Além disso nossa força é limitada, então é natural que tenhamos que nos utilizar de armas. Qual outra arma de fogo é tão prática quanto uma pistola?"

"Hmm. Isso quer dizer que os humanos não foram feitos para lutar. Mas por que você continua lutando?"

“...Vejamos. Se me lembro bem, minha família foi morta quando eu era pequeno. Foi então que escavei uma arma e treinei minha mira para que pudesse me vingar."

"Oh, típico."

Sim, é típico. Tentei rir, mas não pude. Nunca fui capaz de forçar um sorriso.

"Mas ‘família’ não significa que são da mesma espécie? Nunca ouvi falar de nenhum humano vivendo por aqui."

"Não te contei, não é? Originalmente nasci na Terra do Oeste, do outro lado da grande fenda."

"Terra do Oeste...Você fala do continente que foi dizimado pelo Aristóteles Negro-----?"

Surpresa, ela ficou em silêncio. Quando a Terra do Oeste foi queimada até as cinzas, eu era uma criança com 12 ou 13 anos de idade.

Uma velha história de quase sete anos atrás.

"Ah sim, você ainda está naquele emprego?"

"Sim. Não há nenhuma outra oportunidade de emprego para um leigo como eu. Além do mais, não quero ser mantido sob a proteção de espécies raras. ...O quê? Você ainda está reclamando? Eles são diferentes de você. Não se importe com isso, é uma tolice."

"Me importo sim. Não dou à mínima se outros o fizerem, mas me irrita pensar que, de todas as pessoas; você está matando anjos todos os dias. Ei, por que você caça anjos?"

--------Porque sou uma pessoa distorcida.

"-------É o meu trabalho. Não posso fazer nada a respeito."

Disse isso sem olhar em seus olhos. Ela me lançou um olhar gélido, enxergando através da mentira.

"Você está certo. Você deixou de pensar. Por isso não sente mais nenhuma dor. Mas, em contrapartida, não fica nem um pouco feliz. Você também nunca se diverte relembrando o passado. Sua vida deve ser semelhante à máquina que usa. É por isso que você precisa se apoiar em algo simples como o raciocínio lógico para se motivar.”

O anjo disse tais palavras com uma expressão nada contente. Mas qual o problema em ser uma máquina? Uma teoria em que as formas de vida mais evoluídas teriam emoções não é nada mais do que uma fantasia.

"O que há com você hoje? Você está mais implicante do que o normal"

"Fala sério. Isso é porque você não conversa direito comigo."

"Um anjo bêbado não é lá muito atraente."

"Como é? Posso estar assim nesse momento, mas sou bem popular em minha cidade natal."

Retrucando com um “ok ok”, tomei mais um gole. Eu deveria segurar a onda esta noite, mas estou ficando de porre antes dela.

O anjo então me fez uma última pergunta.

"Ei, por que você luta?"

“É porque não quero morrer.”

"Nesse caso, por que você não quer morrer?"

“Provavelmente porque quero viver.”

"Por que você quer viver?"

Isso é óbvio.

“Porque nunca pude experimentar uma coisa boa sequer nessa vida.”

"...Então é isso. Precisando de raciocínio lógico para poder viver... Você é mesmo uma forma de vida inferior."

Ao dizer isso ela se retirou, me deixando só.

Mas o que eu posso fazer? Devido ao fato de a raça humana ter continuado a viver seguindo os seus instintos, o mundo morreu antes dela. Ter que se apoiar num raciocínio pessimista é a única punição dada aos humanos deixados para trás.

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