6/Amor Reluzente

Quando estava prestes a deixar a cidade, fui abordado por um mensageiro do exército. Alguém deve ter se lembrado de uma velha história de cinco anos atrás e me convocou para essa missão.

Quando voltei ao meu quarto para pegar a Black Barrel, que deixei para apodrecer, vi que o anjo ainda estava lá.

"Você vai lutar contra aquilo?"

"Parece que sim. Os Cavaleiros também estão se reunindo. E o exército está ansioso para começar a missão. O objetivo deles é o de pelo menos alterar o curso da Cruz. Se é isso, então a possibilidade não é zero."

"É impossível. Ninguém entende o que um Aristóteles realmente é. Eles não são formas de vida nascidas nesse planeta. Não existe... nenhuma chance de vitória."

"Como pode ser? Na verdade, nós já derrotamos três deles. Se tivermos mais poder de fogo que eles, eles deixarão de ser invencíveis."

"Não sei nada sobre isso. Eles não podem ser julgados pelo senso comum desse planeta. É por isso que até mesmo o conceito de morte não existe para eles. Eles não vão parar até terem cumprido o seu objetivo."

"Objetivo? Vocês têm isso?"

"Sim. O objetivo não é propriamente nosso, mas o temos. Nós chegamos aqui para realizar o desejo desse planeta... Esse planeta morreu devido à influência das formas de vida que viviam sobre ele. O planeta em si não tem um sentimento de mágoa. Até perecer por causa de suas próprias formas de vida ‘é aceitável’. Um planeta possui apenas um desejo, não um propósito.
Mas houve uma exceção. O planeta é capaz de perdoar as circunstâncias de seu fim porque suas formas de vida têm o mesmo destino. Entretanto a espécie humana foi capaz de sobreviver, mesmo sobre a terra morta. Esse planeta se aterrorizou com a existência que continuaria a viver mesmo após a sua morte, e pediu ajuda no último momento: ‘Por favor, eliminem os seres que ainda estejam vivos’."

"...Entendo. Então vocês ouviram o pedido."

Quando murmurei isso, o anjo disse que não, sacudindo a cabeça.

"Os únicos capazes de ouvir o clamor de um planeta são outros planetas. Eu, não, nós somos as mais poderosas formas de vida dos planetas que ouviram o desejo desse mundo. Por exemplo, o Aristóteles chamado Cadáver Celestial... O que eu costumava ser, era o indivíduo mais excepcional de Vênus."

"O... quê?”

Sem perceber, cessei minha respiração. Nossos inimigos se tratavam das espécies dominantes de outros planetas, nos quais o nosso senso comum não se aplica. A forma de vida mais poderosa de um planeta era, em outras palavras, o próprio planeta. A raça humana que sobreviveu nesse mundo, simplificando um pouco, estava enfrentando oito planetas.

"---É, não há nenhuma chance de vitória. Você tem razão quanto a isso."

O anjo acenou com a cabeça numa expressão triste, dizendo que sim.

"E ainda por cima, eles estão certos. Heh... Se os seres humanos tivessem aceitado a profecia do ano 2000, nós ainda teríamos saído como vítimas."

"Não...! Os errados são os Aristóteles². Eles não têm vontade alguma. Não é errado eliminar vidas sem ter a vontade de fazê-lo?"

Foi o que disse o anjo, o qual aprendeu o senso comum desse planeta.

Mas não havia mais nenhuma noção de certo ou errado aqui. A mais simples e única regra era a de ou viver ou morrer.

E essa é a razão---- Por ter vivido até agora, não vou ficar do lado dos condenados.

"Isso não muda nada. Também não tenho nenhuma razão para lutar, e provavelmente nunca terei. No ponto em que estamos, apenas nos matando sem razão alguma, somos iguais. Não é essa a maneira mais simples de se viver?"

O anjo não respondeu.

"O que você fará? Mesmo que vocês tenham o mesmo objetivo, você e aquela Cruz são diferentes, certo? Então o seu corpo será destruído junto com essa cidade. Você disse que morreu instantaneamente, mas isso se aplica apenas aos nossos padrões. Duvido que o conceito de morte desse planeta se aplique a uma forma de vida alheia a ele. Você já não é capaz de se mover?"

O anjo, olhando para baixo, sacudiu a cabeça.

"Não. Caso eu me mexa a casca externa das asas irá se despedaçar, e com isso todas as folhas do que as pessoas chamam Árvores do Mundo cairão. Se isso ocorrer, um número incontável de anjos descerá e, como conseqüência, todos morrerão antes que o Aristóteles chegue."

Disse o anjo, tristemente.

...Ela tem razão. O número de folhas da árvore que alcança até as nuvens é muito maior do que o número de sobreviventes humanos. Bilhões de anjos cobririam o planeta inteiro em muito pouco tempo.

"Mas você morrerá se ficar."

"Está tudo bem. Eu sou as pessoas daqui. Sou apenas uma imagem criada por elas."

"A questão é que elas te forneceram o conhecimento. Você é diferente de nós. Para você, somos apenas acessórios. Você deveria se apressar e retirá-los para se sentir mais leve."

O anjo sorriu de maneira triste e mais uma vez sacudiu a cabeça em negação.

"Você é uma idiota."

"Eu sei que sou, mas não posso fazer nada.
-------------Amo esse lugar."

Disse o anjo com olhos lacrimosos e um sentimento de satisfação.

Como poderia retrucar algo assim?

"...Certo. Creio que não haja mais nada que eu possa fazer."

Enquanto ela acenava positivamente com a cabeça, me encarava. Seus olhos me perguntavam “E quanto a você?”

"Se ainda não percebeu, logo morrerei. Você pode pelo menos me dizer isso e não ser punido pelos céus."

...Foi o que disse sem a menor responsabilidade a punição encarnada que veio a este planeta.
Enquanto colocava meus pertences nas costas, respondi.

"É. Serei honesto. Também amo essa cidade. ------------Além do mais... Desde aquele momento, estive obcecado por você."

“Huh..?” – o anjo arregalou os olhos, surpresa.

"----Hu… Hum. O que isso quer dizer?"

"Deve querer dizer que estive apaixonado por você desde então e só me dei conta agora."

Quando disse as palavras, a expressão do anjo reluziu, porém ela rapidamente abaixou a cabeça.

"Mas eu não sou um ser humano."

O anjo percebera algo assim só agora.

....Meu deus, ela é realmente uma idiota.

"Ei. Só sobrou um ser humano no mundo e esse sou eu. O que é que isso tem a ver?"

"Oh, é mesmo. "
O anjo acenou positivamente com a cabeça, impressionada.

Não há mais nada a ser dito. Comecei a andar para fora ao passo que o momento da mobilização militar se aproximava.

"Até mais. Vá para alguém com um sonho melhor da próxima vez. Se fizer isso pode se tornar um anjo de verdade."

----Minha imaginação sempre foi distorcida em algum lugar.

Quando olhei para o anjo pela última vez, ela me respondeu que ‘não’ numa expressão delicada.

"Não existe algo como um anjo de verdade. Prefiro continuar uma farsa."

A fantasia disse que permaneceria uma fantasia.

Então é isso? Convencido, deixei o quarto.

Tudo o que permaneceu no cômodo foram a guitarra da minha irmã mais velha e o falso anjo.

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