4/Imagens residuais

Me esgueirando por entre as ocupadas ruas da cidade, retornei ao meu quarto.

O anjo insistentemente permanecia lá.

Logo virá o inverno. A temperatura cairá drasticamente num nível em que a cidade literalmente congelará.

Porém não estava nos meus planos passar outro inverno nessa cidade.

"Estão havendo muitos tumultos na cidade ultimamente."

Disse o anjo enquanto olhava para baixo através da janela.

Uma enorme janela, maior que o anjo, parecia mais a janela de uma igreja que vi uma vez num álbum de fotografias.

O anjo loiro com asas brancas e brilhantes curvou-se num rosto triste. Atrás dela, a cidade e as duas Árvores do Mundo estavam embaçadas como uma miragem.

...Todo o resto estava dentro de um mundo cor de aço. Somente esse anjo era belo, como se fosse um pesadelo.

O anjo olhava para baixo na direção da superfície distante.

A cidade estava cheia de pessoas tentando ir embora.

"Hum. O que todas essas pessoas estão fazendo?"

"Eles estão indo embora todos de uma vez. Uma área próxima foi destruída por um Aristóteles com cerca de três mil metros de diâmetro. Após calcularem a sua trajetória, disseram que ele passará através dessa cidade em três dias."

"Acima... De mim?"

"Acima de nós. Ele pode até colidir com a Árvore do Mundo. De qualquer forma, tudo em seu caminho foi destruído. É óbvio que as pessoas estejam fugindo."

"Oh, então é por isso que todos estão tão desesperados."

Disse o anjo enquanto olhava vagarosamente para baixo.

Fitando o anjo apenas parado ali, comecei a arrumar as minhas coisas. Coloquei roupas e equipamento para o inverno, produtor de ar pessoal, além de uma série de armas na mochila. Decidi deixar todo o resto para trás.

"Você também vai?"

"Sim, pois não quero morrer. Mas não agora. Irei depois que o tumulto lá embaixo terminar."

O anjo ficou cabisbaixo numa expressão triste. Por ela estar sempre feliz sem razão alguma, apenas isso a fez parecer solitária.

"...Essa pode ser a última vez, então me deixe perguntar uma coisa. O que é você afinal de contas?"

O anjo suspirou sem nenhuma seriedade.

Só pude deduzir que ela não fazia parte da espécie dos anjos.
Essa é a razão----- Eu queria saber a verdade, pelo menos no fim.

Obtive uma resposta simples:
"O que todos chamam de Aristóteles"
Você não sabia? – era essa a expressão nos olhos dela.

Aristóteles. Um ser estranho que apareceu repentinamente nesse planeta e se tornou um inimigo de todas as coisas vivas. Um inimigo imprevisível com o qual não só era impossível se comunicar, como não se tinha idéia de sua estrutura biológica como ser vivo.

E aqui estava esse ser, numa pequena cidade como essa, num quarto de uma torre deserta, com a forma de um anjo e tocando uma guitarra? Que tipo de piada era essa? …Nenhum ser nesse planeta foi capaz de enfrentar essa forma de vida. Uma punição de Deus.

"Sério? Você?"

"Não eu, necessariamente. A coisa na base dessa cidade, para ser exata. O que eu era foi abatida e caiu nesse lugar. Foi uma morte instantânea. Árvores começaram a crescer e as pessoas começaram a viver em cima do que antes era a mim."

E o anjo prosseguia, dizendo que esse planeta não tinha mais energia para criar vida e por isso as plantas não cresciam mais. Todavia, se fosse sobre alguma outra fonte de vida que não a Terra, elas cresceriam.

"Normalmente não tenho essa forma, mas acabei assim. O que todos chamam de Árvores do Mundo são as asas do que eu costumava ser. ...Humm em outras palavras, penas das asas. As penas que caem tomam a forma do que eu costumava ser. Originalmente, eu era esse tipo de ser invasivo, diferente dos anjos originais desse planeta."

"Mas você ainda possui a forma de um anjo."

"Isso porque eu sou a fantasia de todos. O corpo do que eu costumava ser já se foi, mas aparentemente algo como a mente ainda continua vivo. Porém o conceito de ‘mente’ nunca existiu em mim. As espécies desse planeta tem a incrível habilidade de criar forma a partir do conhecimento. Usando a todos como um modelo, criei uma forma a partir do conhecimento que possuía, mas nunca havia utilizado.
A razão de eu possuir a forma de um anjo é devido a essa ser a imagem mais próxima da forma que eu costumava ter. Dessa maneira fui capaz de me comunicar com todos ao criar o mesmo circuito psíquico. Fui capaz de me tornar o que sou agora ao assumir a forma do anjo imaginário."

O anjo se desgarrou de uma coisa chamada Aristóteles ao se tornar uma ilusão. Ela foi capaz de ter consciência de si mesma pela primeira vez ao se tornar algo diferente do que era inicialmente.
... Ela não passava da manifestação de um anjo que as pessoas imaginaram por elas mesmas.

"Você está feliz?"

O anjo respondeu que sim.

Apenas uma ilusão estava ali.

"-----Entendo, um anjo poderia viver apenas através da imaginação."
Acabei me recordando da definição de um anjo.
Possuir asas, uma auréola, ser muito belo, e por fim... Ser apenas uma ilusão-----
Afinal, qualquer coisa que te traga esperança não passa de mera fantasia.

Quanto pensei sobre isso, o anjo disse numa expressão triste que eu estava certo.

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"Queria ser um anjo de verdade."
Dona de uma aparência que parecia mais a de um anjo do que os próprios anjos, ela disse algo assim.

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